Ser o único clube grande do Brasil sediado fora de uma capital sempre representou glamour para o Santos, e ainda é motivo de orgulho para os filhos da cidade de 430 mil habitantes, a mais importante do litoral paulista. Mas o processo irreversível (e atrasado) de profissionalização do futebol no país vem transformando esse diferencial num dilema para os santistas. Ou o Peixe decide nadar em mar aberto para continuar competindo em pé de igualdade com seus maiores rivais, ou corre o risco de ficar para trás se optar por preservar suas raízes nas praias da Baixada.

No mundo ideal do futebol moderno, o clube deve ser administrado como empresa e o torcedor, tratado como cliente, a exemplo do que já ocorre nos principais centros da Europa. E, como a grande maioria dos 6,3 milhões de torcedores alvinegros espalhados pelo Brasil (conforme levantamento feito em 2016 pelo Instituto Paraná Pesquisas) não vive em Santos, obviamente a necessidade de o clube expor sua marca fora da cidade para conquistar novos consumidores e aumentar a receita é cada vez maior, e obrigatória.

Para isso, não basta simplesmente aumentar a quantidade de suas apresentações longe da Vila Belmiro, onde a média de público não chega perto dos 10 mil pagantes há décadas. Inegavelmente, trata-se de um número incompatível com um gigante do futebol brasileiro, com folha salarial superior a 5 milhões de reais por mês (isso considerando apenas a manutenção do seu elenco profissional).

Mandar jogos fora do seu velho alçapão, aliás, é uma prática recorrente do Peixe, desde que reinava absoluto no planeta durante os anos 60. Naquela época, conquistou de vez a admiração dos cariocas ao se tonar bicampeão do mundo dentro do Maracanã lotado, diante do Milan, em 1963. Um ano antes, também com enorme sucesso, já havia adotado o estádio como sua casa no primeiro duelo da decisão do Mundial, contra o Benfica.

Portanto, o desafio da diretoria que assumirá o Santos em 2018 é bem maior do que, vez ou outra, viabilizar a transferência de jogos menos importantes para o Pacaembu, como já acontece há anos. O que precisa ser feito mesmo é um trabalho profundo e contínuo para aumentar o número de associados e torcedores do clube em todo o país, sob a orientação de profissionais realmente especializados e de olhos abertos para o mundo.

Em outras palavras, não há mais espaço para provincianismo no futebol. Já foi o tempo em que um clube se fazia gigante apenas por suas conquistas e sua história. Hoje, é fundamental ter receita compatível com um mercado cada vez mais milionário e competitivo. Nenhuma empresa cresce sem investir no seu maior patrimônio – os clientes. No caso do futebol, a torcida. É ela quem compra ingressos nos estádios, valoriza as cotas de televisão do clube com sua audiência, consome seus produtos, atrai o interesse de patrocinadores, cativa seus ídolos, etc.

Resumindo, o “Santos sempre vai ser de Santos”, como defendem os cartolas mais bairristas da cidade, mas precisa compreender urgentemente a necessidade de explorar outros mercados para continuar grande. Nenhum gigante é capaz de continuar em pé sem estrutura proporcional ao seu tamanho. Assim como nenhuma empresa se desenvolve de costas para os seus potenciais consumidores.