
Marcelo Teixeira conduz o processo de transformação do Santos em SAF (Foto: Divulgação / CBF)
Sou favorável ao Santos se transformar em uma SAF (Sociedade Anônima do Futebol), acredito que a mudança é inevitável para o clube sobreviver e ser competitivo, mas ela é o meio (não o fim) e o meio não pode justificar o início. Ou seja, o processo não pode ser mal conduzido, acelerado, não pode ter outras implicações só para atender aos anseios de um torcedor sofrido e de uma diretoria que está afundando o clube e precisa de uma tábua de salvação.
Nesta sexta-feira, o Santos divulgou que celebrou “um acordo que concede exclusividade para o início de conversas sobre um possível investimento da SDC Sports LLC em uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF), que poderá vir a ser constituída pelo Clube…O acordo estabelece tratativas não vinculantes e permitirá uma análise aprofundada de aspectos estratégicos, financeiros e operacionais entre as partes, ao mesmo tempo em que preserva a autonomia integral de ambas quanto à eventual formalização de um investimento definitivo na possível SAF do Santos Futebol Clube”.
Logo de cara vejo o primeiro problema com a frase “que poderá vir a ser constituída pelo Clube”. Como você negocia algo que você ainda não tem? Não tem porque o Estatuto precisa ser mudado para adequar o texto sobre a Sociedade Anônima do Futebol. Existe uma comissão do Estatuto trabalhando nas alterações desde o início da gestão do presidente Marcelo Teixeira. Depois de 26 meses, ainda não existe um texto definitivo para ser votado pelo sócios. Vão correr agora para aprovar em algumas semanas com a desculpa de que as mudanças precisam ser feitas para a venda da SAF?
Mudanças de Estatuto são sempre controversas. Na gestão de José Carlos Peres, o Santos começou a discutir o assunto, mas o clube decidiu colocar em votação apenas uma alteração para adequação ao Profut. Por que não podemos repetir o que já foi feito e colocar em votação apenas a mudança do artigo que trata da Sociedade Anônima do Futebol (SAF).
O processo natural seria criar a SAF e abrir possibilidade de o mercado fazer proposta por ela (sim, o clube receberia muitas propostas). O Santos deixou a XP conduzir esse processo de busca pela venda de algo que não existe e decidiu que a melhor proposta era do SDC Sports LLC. Quem decidiu que era melhor? Foi a XP, foi Alexandre Cobra, da empresa criada por ele? Foi o presidente Marcelo Teixeira do alto da sua grande competência administrativa demonstrada nos últimos dois anos? Foi o Marcelinho, filho do presidente? Foi o Comitê de Gestão, que tem apenas três dos cinco membros previstos no Estatuto em atuação nas últimas reuniões?
Na minha opinião, temos o segundo erro porque o processo pode ter sido direcionado (pode, não estou dizendo que foi). Em um processo correto, dada a importância do tema, o Santos deveria, depois de ter criado a SAF, ter elaborado uma comissão com pessoas de diversas alas do clube, com expertises diversas, para analisar as propostas e escolher três para serem votados no Conselho Deliberativo para, posteriormente, a opção escolhida pelos conselheiros ser votada pelo sócios. Pode não parecer, mas o Santos tem em seus quadros pessoas muito capacitadas.
Um terceiro erro desse caso (de novo, na minha opinião) foi a comunicação. Um processo desse precisa ser muito transparente e ele começa um vazamento seletivo de interesse do Grupo Santo Domingo, negado pelo próprio grupo em nota oficial. Depois, temos a visita da família ao clássico contra o Corinthians, que nunca aconteceu. No anúncio, é comunicado a SDC Sports LLC, que nos registros públicos dos Estados Unidos aparece como tendo sido fundada em 8 de setembro de 2025, na Califórnia, em um endereço de uma casa bem bonitinha, tendo como CEO Steve Delgado Castaneda (quem é esse?).
Transparência não é forte da atual gestão. Só para dar alguns exemplos, um membro do Comitê de Gestão pediu desligamento em abril do ano passado e nada foi comunicado. O CG é algo que não é bem visto pelos torcedores, mas é o orgão de administração do clube. Qualquer alteração deveria ser comunicada. O Santos não divulgou a venda do lateral Souza, os empréstimos de Tiquinho Soares, JP Chermont, Billal Brahimi, Gustavo Caballero, a compra de Álvaro Barreal. Onde está a transparência?
O Santos aponta Diego Garcia e Michael Lipman como os mentores do processo do lado da SDC Sports LLC. Garcia é um brasileiro formado em música e artes na Brown University, nos Estados Unidos, que atua como Senior Advisor na Riverstone e na Fortescue Capital, uma empresa que tem como missão “Acelerar as soluções de infraestrutura e tecnologia energética”. Lipman seria o cara dos esportes, um executivo da NFL com experiência por trabalhos em clubes como Liverpool, Roma, Inter de Milão, mas você não consegue encontrar uma informação dele ligada a qualquer um desses clubes. Existe um perfil no Linkedin de um Michael Lipman sem muitas informações, mas com o cargo “communications NFL”). O nome dele também não aparece em qualquer comunicado ou atividade importante da Liga.
Um último ponto importante tem relação com os valores da suposta proposta (R$ 1 bilhão + assumir a dívida de R$ 1 bilhão). Curioso que eu falo nos programas do Canal do Diário do Peixe que a dívida deve estar acima do bilhão, mas a diretoria já declarou algumas vezes que está entre R$ 60o e R$ 700 mil. O que vale: o valor da proposta ou valor para não caracterizar a administração como péssima?.
Eu sei que esse ponto ainda vai ser muito discutido, mas os olhos de alguns torcedores brilham quando aparecem números assim. E eles são ruins. Flamengo e Palmeiras, por exemplo, tem arrecadações anuais acima de R$ 1 billhã0.
Eu não quero saber apenas quanto a empresa vai pagar para comprar o Santos, quero saber quanto ela vai investir no clube. Vai fazer um estádio próprio (que já custaria quase R$ 1 bi)? Vai construir um Centro de Treinamento novo? com qual estrutura mínima? Em quanto tempo? Isso vai estar garantido em contrato?
O Santos prevê uma receita acima dos R$ 600 milhões em 2026. Para ser competitivo, precisaria ter entre R$ 900 milhões e R$ 1 bilhão. A empresa vai garantir por contrato um aporte anual incremental de R$ 300 ou R$ 400 milhões acima das receitas geradas pelo próprio clube?
Sobre a dívida, a maior parte dela é de longo prazo. Ela será paga com dinheiro externo ou com as receitas geradas pelo próprio clube? Se for com as receitas do próprio clube, não seria preciso um dono, mas apenas uma administração mais capacitada (sim, é verdade, faz tempo que o Santos não tem uma).
São muitas dúvidas ainda de um processo que está na fase inicial, mas já começa torto. O meio é a transformação em SAF, mas esse caminho todo precisa ser bem percorrido porque a transformação em SAF não é uma varinha mágica que faz uma abóbora virar uma carruagem.
O fim é boa gestão. O Santos pode ser um avião e não uma carruagem, mas precisa ter não só dinheiro, mas uma administração decente, com pessoas capacitadas, conhecidas pelo mercado, com experiências anteriores comprovadas.
O torcedor não pode ser empolgar com falácias. Presidente de um clube de futebol você tem a chance de mudar a cada três anos, um dono você não tem como trocar.
Esse pessoal que apoiou o Rueda do inicio ao final do mandato como foi o caso do Diário do Peixe, sempre foi a favor da SAF, agora q podemos virar SAF, são contra por narrativas sem nenhum sentido pq é o Marcelo Teixeir e o Diário do Peixe é oposição ao NT.