Setor em que Guilherme Lesnok assistiu o jogo

Para quem mora em São Paulo, os jogos do Santos na Vila começam muito antes de a bola rolar. Nesse caso específico, a espera durou muito mais. Eu costumo dizer que, desde a pandemia, eu estava ‘esperando’ o ônibus para poder ver o Santos jogar. E é incrível quanta coisa mudou no clube desde que os torcedores ficaram longe do estádio.

Para ver esse ‘novo’ Santos, acordei ansioso. Na verdade, foi difícil dormir. Separei minha roupa para o dia seguinte ainda de noite, preparei minhas coisas para levar. Ok. Tudo pronto. Agora é tentar dormir.

O relógio despertou às 8 horas, mas nem era preciso. Eu já estava com os olhos vidrados no celular. Me arrumei e parti, de metrô, como um bom paulista, para encontrar os amigos na Caravana Sócio Rei.

Cheguei no Santos Business Center, próximo à Avenida Paulista, por volta das 10h20. Pensei que seria o primeiro a chegar, mas não. Entre uns respingos de chuva, um grupo de torcedores já fazia uma fila próxima a um ponto de táxi, na cobertura, para esperar as pessoas ligadas ao Santos.

Chegada no Santos Business Center (Crédito: Guilherme Lesnok)

Os assuntos variavam. Ações do presidente Rueda, futebol de Marinho, algumas saídas do Santos como Luan Peres, Kaio Jorge e Soteldo, a presença de Zanocelo no time titular, a saudade da Vila. A torcida estava ansiosa. Queriam ir o mais rápido possível para Santos.

A fila já tinha um bom tamanho. Nem todos conseguiam uma cobertura para chuva. Os monitores do Sócio Rei chegaram e começar a identificar um a um, os nomes na lista. Pouco a pouco, tudo foi ficando organizado. Nem o atraso do ônibus tirou o sentimento que os torcedores estavam naquele momento.

Falando sobre a ação do Sócio Rei, das caravanas, é um ótimo benefício ao Sócio. Mas vale o registro de uma dica, e acho que posso falar por várias pessoas que lá estiveram: seria interessante os torcedores chegarem em Santos com a pulseira que identifica a vacinação da Covid. Assim, já evita mais um trabalho tanto para o torcedor, quanto para o clube. Fazer duas triagens é uma perda de tempo para ambos.

Chegada em Santos:

Os ônibus pararam na praça da Bíblia por volta das 14h30. Andamos alguns minutos e já foi possível ver a Vila Belmiro. Não era heresia. Ela realmente estava ali, viva, pulsante. Linda. Ela estava lá.

Fui direto para as cabines da triagem para minha liberação para entrada. Tinha uma pequena fila e foi tudo muito rápido. Apresentei o meu RG, meu comprovante de vacinação das duas doses da vacina e o meu cartão do Sócio Rei. Recebi uma pulseira que identificava minha situação como “ok”.

Triagem para apresentação dos documentos de vacinação (Crédito: Guilherme Lesnok)

Ônibus dos jogadores:

Enquanto saía da cabine da triagem, vi um movimento grande próximo da estátua do Seo Zito. Era o ônibus dos jogadores chegando na Vila. Isso vale destacar: se alguém que não soubesse o atual momento do Santos, ia imaginar que o time estava chegando para disputar a final do mundial. Muita festa, fogos, fumaça e apoio. Se algum daqueles atletas ainda não sabia o que era ser Santos, tudo mudou.

Reencontro do torcedor com os jogadores (Crédito: Guilherme Lesnok)

Reencontro com amigos:

Foi uma das melhores partes. Eu estava morrendo de saudade daquele clima da Vila no pré-jogo. Próximo ao bar do Alemão, depois passando perto da Quadra da Torcida Jovem do Santos, em seguida a entrada principal do estádio. Entre abraços, conversas e gritos de esperança, destaco meu encontro com a Gabriela Fernandes. Recebi dela minha faixa do “Reage, Santos”. Encontrei o Felipe Noronha, do Eu vim de Santos. Dei alguns pitacos na live em que fazia nas suas redes sociais. E teve muito sal grosso. Em mim, na Gabi, no Noronha, na entrada da Vila, no VAR…

Guilherme Lesnok com a faixa REAGE, SANTOS

Quero aproveitar para agradecer aos diversos torcedores que me pararam para elogiar o trabalho do Diário do Peixe, para mandar abraços aos outros membros da equipe. Temos repórteres, colunistas, comentaristas… Como diz o Giovane Martineli, “são mais de 10 pessoas falando ou escrevendo sobre o Santos. E as pessoas têm opiniões diferentes entre si e isso é super saudável”. Muito legal ver que os torcedores concordam com isso. Em nome do Diário, o meu agradecimento.

Entrada na Vila Belmiro:

Meu ingresso marcava o Portão 22, Cadeira Coberta J. de Alencar. Eu nunca havia assistido jogos neste setor. Fui acompanhando por um funcionário do clube até o meu lugar. Aqui vale um elogio: todos os monitores da Vila estavam à disposição para auxiliar no que fosse preciso. Também vale o elogio para os próprios torcedores que usavam máscaras, como determina o protocolo.

Quando anunciaram a escalação, os gritos mais comemorados eram de João Paulo, Carlos Sánchez e Marinho. E também teve os famosos cantos dos nomes dos atletas. Até aquele que não passa tanta confiança, que os torcedores não gostam. Isso não interessa. O apoio foi unânime. Jogadores e comissão técnica.

O Minuto 10 aconteceu pela primeira na Vila. E o fato curioso é que, quando o relógio apontou 10 minutos do primeiro tempo, o Santos teve uma grande finalização com Marinho. Então os gritos aumentaram e o primeiro Minuto 10 foi histórico. E vale lembrar: Mil gol, só Pelé. Que jogou no Santos.

A volta para o segundo tempo misturava sensações diferentes. Muita ansiedade, um pouco de preocupação. Mas não posso dizer que o clima estava tenso. Os torcedores não deixavam isso acontecer. O clima desde o primeiro minuto era de otimismo e MUITO apoio.

Gol, VAR e sal grosso

Aquela história do sal grosso no VAR? Então, o nome dele é Israel Melo, ele trabalha na Vila no setor de distribuição de alimentos. E podemos dizer que o Craque do jogo não entrou em campo.

O relógio já batia 47 minutos, jogo próximo de acabar. Marinho se arrastava em campo, estava muito cansado. Mas continuava correndo. Sánchez, 37 anos, na mesma. Não deixou de correr um minuto.

Uma nova oportunidade nasceu em cobrança de escanteio. Pirani jogou na área, a bola foi tirada, Sánchez jogou novamente e a bola sobrou para Marinho, que finalizou completamente torto. Mas a sorte mudou. Mudou? Wagner Leonardo colocou para dentro, mas o bandeira anulou. O clima foi de festa por cerca de 2 segundos. E foi praticamente o mesmo tempo em que os torcedores puderam soltar o grito.

Wagner Leonardo fez o gol que deu a vitória ao Santos (Crédito: Ivan Storti/Santos FC)

Enquanto o time do Grêmio usava da catimba para segurar o final do jogo, alguns gritos saíam das cadeiras da Cativa da Vila. Confesso que fiquei um pouco confuso. A comemoração começou acontecer em cada setor, parecendo um relógio circulando. Com alguns minutos, entendi. Os torcedores da cativa ouviram dos profissionais de imprensa que o gol estava legal.

O árbitro Bruno Arleu de Araújo colocou a mão no ouvido. Mas nem precisava. O sal grosso antes da partida já tinha feito efeito. Os torcedores já comemoravam o gol. GOL. Do Santos. No finalzinho do jogo. Foi validado. Pode comemorar, torcedor. Vibra Camacho. Vibra Wagner Leonardo. Vibra Carille. Vila pulsando.

Daí em diante, os minutos finais foram ‘bola pro alto que o jogo é de campeonato’. O Santos se segurou e venceu. Foi o fim dos 11 jogos sem vencer. O Peixe escapava da zona de rebaixamento. A Vila Belmiro gritava.

Durantes esses minutos, um turbilhão de coisas passavam pela minha cabeça. Um título perdido em janeiro. O 10 que foi para o Canadá. O zagueiro que brilha hoje no futebol português. O 9 que foi embora com clima estranho. Viu a fase ruim. Viu eliminações. Viu o treinador argentino que deixou o clube após maus resultados. Como era possível? Um treinador daquela qualidade não dar certo. Viu a vitória que lhe foi tirada no clássico contra o São Paulo, em um pênalti duvidoso.

O torcedor viu e sentiu mil emoções. No final, a espera para voltar à Vila valeu a pena. Quem viveu, sabe.