Márcio Mazzitelli nos tempos de Meninos da Vila (Crédito: Arquivo pessoal)

Na última quinta-feira, o Conselho Deliberativo do Santos aprovou os nomes de Márcio Mazzitelli e Marcelo Giufrida para o Comitê de Gestão do clube. O primeiro foi Menino da Vila e superou uma drama familiar com um projeto social que atende a quase 200 crianças, em São Vicente.

Santista de nascimento, Márcio começou a lutar pelo sonho de ser um atleta profissional no Portuários, clube tradicional de Santos. Era zagueiro e foi campeão infantil municipal em 1977, vencendo o próprio Santos na decisão. No ano seguinte, o técnico do Portuários se transferiu para o Peixe e levou quase toda a equipe campeã com ele.

Em 1980, Márcio foi campeão paulista juvenil com o Santos, treinado pelo ex-craque Coutinho. O novo membro do Comitê de Gestão lembra de detalhes muito interessantes dos treinamentos.

“Ele não deixava atacante dar um chute forte na frente do goleiro. Ele parava o treinamento e falava – olha, o goleiro quer que você dê um chute forte porque no reflexo ele pega. Toca no cantinho – Era exatamento o que ele fazia. Não o vi jogando, mas era o que meu pai falava. Ele (Coutinho) era um cara extraordinário, muito bacana, todo mundo adorava”, lembra Mazzitelli.

O candidato a zagueiro ficou no Santos até 1983. Naquele ano, ele se transferiu para o Juventus, chegou a enfrentar o baixinho Romário em uma Copa São Paulo. Atuou com Nelsinho Baptista, Carlos Pracidelli, entre outros. Foi emprestado ao Paysandu, de Santa Catarina, que se fundiu com o Carlos Renaux e se transformou em Brusque. Então, o sonho começou a ficar mais distante e ele encerrou a carreira de forma precoce.

“O mês tinha 90 dias e eu tinha projetado que com 20 anos tinha de estar jogando em um time grande, era um objetivo que tinha colocado. Resolvi parar e deu tempo para correr para outra carreira. Virei propagandista da indústria farmacêutica e fiz carreira até gerente nacional de vendas”, lembrou.

Anos depois de encerrar a carreira, um drama familiar colocou novamente o Santos no caminho de Mazzitelli. A sua primeira filha, Nayla, foi diagnosticada com uma doença rara, a Osteopetrose autossômica recessiva, uma doença genética em que os ossos crescem em espessura e afetam o crescimento de hemáceas. Na época, era diagnosticado um caso do problema por ano em todo o mundo.

Mazzitelli e os familiares começaram a estudar o caso e descobriram que a única possibilidade de cura era um transplante de medula, feito apenas nos Estados Unidos. O valor era US$ 200 mil. Sem dinheiro para o tratamento, ele e alguns amigos começaram uma campanha para arrecadar fundos.

“Conhecia muita gente no Santos. Fui pedir ajuda e fui muito bem recebido pelos jogadores, os líderes principalmente… Sérgio Guedes, Paulinho McLaren, Cesar Sampaio. Todo jogo do Santos eles entravam com uma faixa da campanha. Levaram também em clássicos. Em um jogo entre Santos e São Paulo, o César Sampaio conversou com o Raí e os dois times mostraram a faixa”, lembra.

A campanha conseguiu arrecadar os fundos e Márcio Mazzitelli viajou para os Estados Unidos com a filha para a realização do transplante. Ele foi doador e o transplante foi realizado. Dez dias após o procedimento, a vida deu mais uma rasteira no Menino da Vila.

“O transplante estava indo muito bem, mas em consequência da quimioterapia que estava recebendo, Nayla estava imuno-deprimida. Com isso, um dia ela vomitou e acabou aspirando o próprio vômito, vindo a falecer de pneumonia aspirativa Foi difícil”, relembra.

Márcio Mazzitelli voltou ao Brasil no dia 1 de setembro de 1990 e, 17 dias depois, fundou ao lado dos amigos a Associação Beneficente Amor à Vida. A ideia era retribuir a ajuda que eles receberam da comunidade. Eles tinham US$ 18 mil que havia sobrado do tratamento nos Estados Unidos.

Depois de alguns percalços com mudanças cambiais e dificuldade para encontrar terreno, em 1999 a associação conseguiu inaugurar a Creche Nayla na Cidade Náutica, em São Vicente (conheça a creche aqui e sabia como ajudar). No início, foram atendidas 100 crianças na creche. Em 2019, a associação construiu a segunda unidade, atendendo a 196 crianças. Cada unidade tem dois mil metros quadrados, com área verde, pomar, horta, etc.

“Foi a maneira que a gente encontrou de retribuir para a sociedade tudo o que tínhamos recebido”, afirmou.

Se a maneira que Márcio Mazzitelli  encontrou de retribuir o carinho da comunidade e superar o drama com a perda da filha foi construindo a creche Nayla, a participação no Comitê de Gestão é emcarada por ele como uma maneira de retribuir o apoio do Santos na campanha para a arrecadação de recursos para o transplante.

“Além de ser um torcedor apaixonado pelo clube, tenho uma gratidão muito grande pelo Santos pela ajuda que deram para a minha filha e agora tenho a oportunidade de contrubuir com o clube. Tenho uma missão e pretendo cumprir essa missão da melhor maneira possível”.