Santos busca o tetracampeonato da Copa Libertadores neste sábado (Crédito: Ivan Storti/Santos FC)

Por Gabriel Soares, especial para o DIÁRIO DO PEIXE

Você pode estar estranhando em me ver aqui, na final da Libertadores. Mas para mim não tem nada estranho. Eu sou o brasileiro que mais ganhou isso aqui, empatado com outros dois gigantes. Aí pode ter uns que falam, “ah, mas ele vive de passado”. Então… é minha terceira final disso aqui no século. Nenhum outro brasileiro tem mais. Você pode até desconfiar de mim, mas na verdade não muda nada.

Ou você acha que eu esperava nascer em uma cidade que na época não tinha nem 100 mil habitantes e me tornar o primeiro brasileiro campeão da América e do mundo? Até hoje eu sou o único grande do país que não pertence a uma capital, aliás. E você acha que eu esperava que o melhor da história vestisse a minha camisa? E só a minha camisa? Você acha que eu esperava que esse melhor da história formasse um ataque que fez mais de 2 mil gols? E que eu, embalado por esse ataque, fosse capaz de levar paz e interromper guerras na África? Você acha que eu esperava?

Que mesmo no luto pelo fim dessa geração eu depositasse minha esperança em meninos que se tornaram campeões? Que eu ia aguentar tantas administrações ruins e jamais esquecer de um ídolo de cabelo vermelho que não conquistou nenhum título no auge? Você acha que eu esperava ser campeão em 2002? E 2004? E não parar mais de ser campeão. Você acha que aquela mágica de 2010 obedecia a algum roteiro? E 2011, que eu troquei meu técnico no meio do caminho pra conseguir a terceira estrela. Você realmente acha que eu tinha planejado tudo aquilo?

Aí, trazendo pra hoje, você pode se perguntar: ô, Santos, será que você imaginava chegar em mais uma final da Libertadores nessa temporada tão confusa? Pois é, a Fifa não me deixou contratar, um monte de jogador me abandonou no meio do caminho, meus dirigentes não estavam conseguindo nem pagar os salários dos meus jogadores. Você acha que eu esperava, apesar de tudo isso, ter a possibilidade de conquistar mais um grande título?

Posso te contar um segredo? Tsc… não sei se devo. Mas lá vai: eu imaginava, sim. Na minha história os fatos extraordinários se empilham, se multiplicam. Eu tenho a consciência de que meus torcedores escolheram um time especial, fora do comum, capaz de fazer história quando menos se espera. É como se a minha camisa, branca, listrada, azul ou até dourada, transformasse todo mundo que veste em alguém preparado pra fazer história. O santista é um escolhido. De todas as cidades ou idades. Ser a minoria e ser o maior parece que não combina. Mas é exatamente o que me define. E não adianta tentar explicar isso pra quem não torce por mim. No final, eles vão me ver lá, no lugar mais alto, e vão repetir o de sempre: “nossa, essa água de Santos é boa mesmo”, “que sucesso inexplicável”. Mas quem sabe um pouquinho de história percebe que meu sucesso não é exceção, é regra. E tá tudo bem, podem falar da água de Santos. Eu me divirto e eles continuam sem entender nada.

Eu ainda não sei o que vai acontecer nessa final. Eu sei que 11 guerreiros que ousaram desafiar essa lógica criada — pelos outros — de que eu não chegaria vão dar tudo de si dentro de campo. Eu sei que meu técnico tem valor e fé, que nunca é demais. Eu sei que tem mais um monte de gente que trabalha e veste a minha camisa e está com muita vontade de colocar uma medalha de ouro por cima. E eu sei que tem milhões na torcida, onde e como eu estiver. Também sei que o adversário merece respeito, e sempre será assim. Se for pra ganhar ou perder é dentro de campo, jamais fora.

Só uma coisinha pra encerrar: parem de duvidar de mim.