
Marcelo Teixeira criou o quadro Presida responde (Foto: Raul Baretta / Santos FC)
Nas últimas semanas, o presidente do Santos, Marcelo Teixeira, criou um quadro nas redes sociais chamado Presida Responde, com vídeos editados com o dirigente comentando alguns assuntos do clube. Nesta quarta, poucas horas antes da eliminação do Peixe diante do Atlético-MG na Copa Sul-Americana, os sócios receberam um e-mail com uma mensagem informativa sobre o quadro, links e algumas frases do presidente santista.
“Com o compromisso de manter os associados cada vez mais informados sobre as decisões e os caminhos do Santos Futebol Clube, criamos o “Presida Responde”, um espaço dedicado a apresentar informações, esclarecer dúvidas e prestar contas sobre os principais temas da gestão”, diz trecho do e-mail.
Uma das frases é sobre prestação de contas. Marcelo Teixeira afirma que o déficit de R$ 119 milhões no segundo trimestre e a dívida de R$ 1,2 bi (era de R$ 602 milhões no final de 2023, ou seja, dobrou em dois anos e meio) não podem ser creditadas somente a ele.
“Quando alguém mostra apenas quanto o passivo aumentou, está contando apenas metade dessa história. Ao assumir o Santos, encontrei um clube rebaixado, endividado e com diversas obrigações herdadas. Já solucionamos cerca de R$ 126 milhões em passivos anteriores, enquanto juros da Selic acrescentaram quase R$ 200 milhões à dívida; por isso, o aumento do passivo não pode ser analisado isoladamente. É preciso mostrar também quanto esta gestão já destinou para pagar obrigações que já existiam”, diz o presidente.
Vamos contar a outra parte da história. Em 2010, após perder a eleição para Luis Álvaro Oliveira Ribeiro, o LAOR, Marcelo Teixeira entrou com ações cobrando o clube dos empréstimos feitos pela família durante os nove anos de mandato. Dois deles totalizavam R$ 32 milhões e, em um deles, a diretoria ofereceu a penhora da Vila Belmiro (ele recusou). Você pode conferir mais detalhes nessa matéria do UOL aqui.
Em 2009, a receita do Santos foi de R$ 62 milhões. Isso significa que a dívida cobrada por Marcelo Teixeira da gestão LAOR era a metade da receita da temporada. A partir de 2027, o futuro presidente do clube vai ter de pagar R$ 20 milhões para Zé Rafael, cerca de R$ 70 milhões para a NR Sports, sabe-se lá quanto para Tiquinho Soares, Mayke. Provavelmente, a soma será maior do que os R$ 126 milhões “herdados” pelo dirigente. Eu vejo o futuro repetir o passado.
“Eu não vou fugir dos números. Esse endividamento não nasceu agora. O que nós estamos fazendo é trabalhar para organizar essa dívida”, disse o presidente no e-mail aos sócios.
O Conselho Fiscal do Santos, formado quase que totalmente por conselheiros eleitos na chapa de Marcelo Teixeira, acredita que o trabalho não está sendo bem feito. Diz trecho do relatório do segundo trimestre de 2026.
“Em síntese, apesar da melhora na arrecadação, o trimestre apresentou deterioração dos resultados operacional, patrimonial e financeiro. O cenário exige maior rigor no acompanhamento da execução orçamentária, controle das despesas, regularização das obrigações vencidas, transparência na demonstração dos passivos e adoção de um plano objetivo para reduzir a exposição financeira e a dependência de receitas futuras”, diz o documento.
O presida responde também aborda temas como SAF, CT para a base, WTorre e Retrofit da Vila.
Dos 36 meses previstos para o mandato de Marcelo Teixeira, já passamos de 32 e nenhum desses assuntos avançou.
Promessas de CT já foram duas. No ano passado, em evento no CT Rei Pelé, foi anunciado o CT em parceria com a NR na Praia Grande. Estaria pronto em junho deste ano. Até o momento, foram palavras ao vento.
A promessa da vez é de um CT em São Vicente. Em uma bela entrevista do Prefeito Kayo Amado ao excelente jornalista Alex Frutuoso, fica claro que existiu apenas a cessão de uma área que ninguém sabe quando (e se) poderá ser utilizada, na melhor das hipóteses, a partir do segundo trimestre do ano que vem (veja aqui). Não existe projeto e, mais importante, não existe dinheiro.
Vamos falar sobre a WTorre. No dia 12 de janeiro de 2024, apenas 12 dias após Marcelo Teixeira assumir a presidência, o Santos publicou uma nota oficial no site com a reunião com a construtora (veja aqui).
“Durante o encontro foi apresentada a documentação da abertura da SPE (Sociedade de Propósito Específico) e na próxima semana serão protocoladas, na Prefeitura de Santos, as correções exigidas para a aprovação do projeto definitivo”, dizia a nota.
Enquanto conversava com a WTorre, assessores e diretores do Comitê de Gestão procuravam alternativas. Pensaram em importar o estádio de contâiner da Copa de 2022 (é sério). Queriam um estádio no Parque Valongo. A WTorre nunca foi prioridade até o momento em que o Santos deixou de ser prioridade para a construtora também.
Sem WTorre, a gestão passou para o retrofit da Vila.
“Nós queremos abrir a Vila para o torcedor. Estamos modernizando e abrindo a Vila Belmiro para uso diário, com mais conforto, segurança e receita por meio de serviços, lojas, alimentação e parcerias com investidores e marcas. Quero transformar a Vila Belmiro em um verdadeiro alçapão, tornando-a mais popular e acolhedora para a torcida, além de ampliar sua capacidade para 26 mil pessoas.”
A “modernidade” até agora foi a duplicação de degraus na arquibancada. Os pontos cegos aumentaram. E o gramado, que desde a gestão do excelente presidente Samir Abdul-Hak tornou-se referência e motivo de orgulho, nunca esteve tão ruim, sendo alvo de críticas de adversários e dos próprios jogadores, entre eles o craque Neymar.
A arrecadação do Santos aumentou em grande parte por cenários externos (direitos de TV, Liga, etc), muito mais do que por ações da administração. Os patrocínios nesse último ano foram piores do que do ano anterior a ponto de o clube oferecer sete (SETE, eu disse SEEEEEEETE) propriedades para a NR Sports em troca do valor da dívida com o Mônaco (cerca de R$ 12 milhões).
Diversas perguntas poderiam ser feitas ao “presida”. Coisas como se vai valer a pena pagar salários altos para Arthur, Coutinho e Cebolinha por dez jogos para terminar no G-Santos do Brasileirão (ou porque eles não foram contratados antes), sobre se valeu a pena a negociação de Jair, convocado para a Seleção, com o Botafogo e Tiquinho Soares, os valores das rescisões de Mayke, Rincón, Tiquinho Soares, Morelos, Furch, se o Santos vai pagar o Pedro Caixinha, o Benfica (pelo Rollheiser), o Barreal, se vai regularizar a CND e o CRF, os direitos de imagem atrasados, se o Santos corre o risco de perder o Profut, entre outras.
Mas acho que uma pergunta resume tudo isso. Presida, cite uma (umazinha) coisa que melhorou no Santos desde 2024?
O Santos foi eliminado neste dia 16 de setembro e o ano acabou. O clube não briga por mais nada, graças aos “co-irmãos da incompetência”, que conseguem ser tão ruins quanto, mas não contam com o presidente, diretor financeiro e diretor de futebol Neymar, que evitou, com dinheiro e ligações para jogadores amigos, o segundo rebaixamento, que era quase certo.
Na mesma noite em que o Santos perde nos pênaltis e o Corinthians é eliminado por um pênalti perdido por Memphis Depay, o Palmeiras avançou na Copa Libertadores, também nos pênaltis. Não é aleatório.
Como diz o livro do Ferran Soriano, “a bola não entra por acaso”.




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