Reunião recente dos clubes da Série A e B do Brasileiro na CBF (Foto: Divulgação / CBF)

Os clubes brasileiros estão em discussões por uma linha de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para auxiliar equipes das Séries A e B a lidar com dívidas. As conversas acontecem em meio à possibilidade de novas restrições ao mercado de apostas, setor que tem participação relevante nas receitas do Peixe. 

O Santos atualmente tem a Novibet como patrocinadora máster, em contrato de três anos, com valor fixo de R$ 35 milhões por temporada e possibilidade de alcançar R$ 85 milhões com valores variáveis. O clube também participou do manifesto divulgado na semana passada por equipes e federações em defesa da manutenção do mercado regulado de apostas. 

No documento, Santos, Palmeiras, São Paulo, Corinthians e outros clubes afirmaram que o investimento das empresas de apostas autorizadas se tornou uma das principais fontes de receita do futebol e defenderam fiscalização e mecanismos de proteção sem a retirada do mercado regulamentado. As entidades também alertaram para os possíveis impactos econômicos de uma eventual restrição. 

Clubes negociam crédito com o BNDES

A proposta em discussão prevê uma linha de financiamento do BNDES com juros inferiores aos praticados normalmente pelo mercado bancário. O dinheiro, caso o projeto avance, seria destinado principalmente ao pagamento de dívidas dos clubes.

O formato ainda não foi definido. Também não há, neste momento, um valor estabelecido para o montante que poderia ser disponibilizado pelo banco ou quais seriam os critérios para que cada clube tivesse acesso aos recursos. 

A proposta também é diferente de programas de recuperação fiscal realizados anteriormente, já que não ficaria restrita a débitos tributários. Outra possibilidade discutida é a liberação de recursos para investimentos em infraestrutura, o que permitiria contemplar clubes com níveis menores de endividamento.

As conversas são conduzidas principalmente por Corinthians e Internacional, que enfrentam dificuldades financeiras e estão sob transferban da Fifa. Os presidentes dos dois clubes, Osmar Stabile e Alessandro Barcellos, buscaram apoio de Pedro Daniel, atual CEO do Atlético-MG e ex-diretor-executivo da EY. Um estudo produzido pela consultoria passou a servir de base para as tratativas com o Ministério do Esporte e a CBF. 

A CBF participa das discussões como articuladora, mas não seria responsável pelo financiamento. O regulamento de Fair Play Financeiro, que entrou em vigor neste ano, também é utilizado como argumento nas negociações. A ideia apresentada pelos clubes é que o acesso ao crédito ocorra dentro de um cenário com regras de governança e mecanismos de controle financeiro. 

Bets também entram nas discussões

A possibilidade de restrições às empresas de apostas aparece paralelamente às negociações. Os clubes argumentam que uma eventual redução do mercado poderia diminuir uma das principais fontes de patrocínio do futebol brasileiro.

Atualmente, as empresas do setor ocupam espaços relevantes nos uniformes e em outras propriedades comerciais dos clubes. Levantamento publicado pela Folha aponta que 13 dos 20 clubes da Série A tinham uma empresa de apostas como patrocinadora máster em 2026. 

No caso do Santos, a relação com o setor inclui contratos recentes com Blaze, 7KBet e, atualmente, Novibet. O acordo com a Novibet prevê R$ 35 milhões fixos por ano, além da possibilidade de receitas adicionais vinculadas ao desempenho da operação. 

Na semana passada, o Santos e outros clubes divulgaram um manifesto no qual defenderam a manutenção do mercado regulado e afirmaram que mudanças nas regras poderiam reduzir investimentos no futebol e incentivar a atuação de plataformas ilegais. 

A estimativa apresentada no manifesto e em reportagens sobre o tema é de que as casas de apostas movimentem mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios aos clubes da Série A. 

As negociações entre clubes, governo e CBF já acontecem desde agosto. Apesar do interesse demonstrado pelo Ministério do Esporte e pela entidade que administra o futebol brasileiro, a expectativa é de que uma eventual proposta de auxílio avance somente após as eleições, cujo segundo turno está marcado para 25 de outubro.