
Macará faz campanha histórica na Copa Sul-Americana (Crédito: Conmebol)
De um lado, o Santos de Neymar. Do outro, um clube que, até poucos meses atrás, ainda não havia disputado uma fase de grupos de uma competição internacional. O confronto entre Santos e Macará, pelas oitavas de final da Copa Sul-Americana, coloca frente a frente duas realidades bem diferentes do futebol sul-americano. Para o time equatoriano, porém, a eliminatória já representa um capítulo inédito de sua história.
Fundado em 25 de agosto de 1939, em Ambato, o Club Deportivo Macará nasceu da iniciativa de um grupo de jovens da cidade. O nome foi escolhido em um período de forte tensão entre Equador e Peru e carregava uma referência ao sentimento patriótico daquele momento. Desde então, o clube se transformou em uma das principais instituições esportivas de Ambato e ganhou os apelidos de “Ídolo Ambateño” e “Viejo y Querido”.
A cidade de Ambato, localizada a mais de 2.500 metros de altitude, é a casa do Macará. O Estádio Bellavista é o palco tradicional do clube e também cenário do clássico local contra o Universitario, rivalidade que divide a cidade entre as cores celeste e vermelha.
Um clube sem título da elite, mas com tradição de acesso
O Macará ainda não conquistou o Campeonato Equatoriano da primeira divisão. Seu maior resultado na elite foi o terceiro lugar no campeonato de 2019, temporada em que o time chegou a liderar a classificação geral e terminou entre os principais protagonistas do futebol do país.
A história de títulos do clube está especialmente ligada à segunda divisão. Em 2023, o Macará conquistou a Serie B equatoriana pela quinta vez, garantindo o retorno à elite depois de apenas uma temporada de ausência. Na campanha, somou 64 pontos, com 18 vitórias e dez empates.
O clube também construiu uma identidade forte por meio de seus jogadores. Entre os nomes marcantes estão o atacante Rómulo Dudar Mina, artilheiro do campeonato equatoriano em 1970 com 19 gols e segundo maior goleador da história do Macará, e o meia Carlos Feraud, capitão e ídolo da torcida na década passada.
Outro nome de destaque revelado pelo clube foi Michael Estrada. O atacante, que disputou a Copa do Mundo de 2022 pela seleção equatoriana, estreou profissionalmente pelo Macará antes de construir carreira internacional.
Sanguinetti, o comandante uruguaio
À frente da equipe está o uruguaio Guillermo Sanguinetti, de 60 anos. Ex-jogador, atuava como lateral-direito ou meio-campista e teve uma longa passagem pelo Gimnasia y Esgrima La Plata, além de defender a seleção uruguaia em algumas oportunidades. Depois de se aposentar, iniciou carreira como treinador.
Sanguinetti assumiu o Macará em abril de 2025 e teve seu contrato renovado para a temporada de 2026. Seu trabalho ganhou força justamente pela capacidade de tornar a equipe competitiva fora de casa e dar consistência defensiva ao time.
Na Sul-Americana, o treinador montou a espinha dorsal do time com jogadores uruguaios que conhece bem, como o goleiro Rodrigo Rodríguez, o zagueiro Santiago Etchebarne e o atacante Franco Posse. Ao lado deles, o equatoriano José Luis Marrufo, capitão e líder defensivo, e o experiente José Cazares dão equilíbrio à equipe.
Posse e Miranda são os nomes para observar
O principal destaque ofensivo do Macará na Sul-Americana é Franco Posse. O atacante uruguaio, de 25 anos, chegou ao clube para a temporada de 2026 e rapidamente se tornou referência no ataque. Na competição continental, marcou contra o Alianza Atlético, no Peru, e também balançou as redes diante do Tigre. Mais do que um centroavante de área, Posse costuma recuar para participar da construção, combinar com os companheiros e atacar os espaços.
Outro jogador importante é o argentino Matías Miranda, camisa 10 e principal articulador do time. Ele foi titular nos seis jogos da fase de grupos, deu a assistência para o gol da vitória sobre o Tigre e marcou na vitória por 2 a 0 sobre o Alianza Atlético. Sua capacidade de atuar entre as linhas e finalizar de média distância é uma das armas ofensivas da equipe.
No gol, Rodrigo Rodríguez é outro personagem central da campanha. O uruguaio terminou a fase de grupos com quatro partidas sem sofrer gols e participou de uma sequência de sete jogos invictos do Macará em competições da Conmebol — a maior da história do clube.
O elenco inscrito na Sul-Americana ainda conta com nomes como Jean Estacio, José Cazares, Federico Paz, Santiago Etchebarne, José Marrufo e Matías Miranda.
A campanha que mudou a história
O Macará chegou à fase de grupos depois de eliminar o também equatoriano Orense por 1 a 0, gol de Gastón Blanc. Era o início de uma campanha que rapidamente se transformaria na melhor participação internacional do clube.
No Grupo A, ao lado de América de Cali, Tigre e Alianza Atlético, o time de Sanguinetti começou empatando por 1 a 1 com o América. Depois, veio uma sequência decisiva: vitória por 1 a 0 sobre o Tigre, na Argentina, e triunfo por 2 a 0 sobre o Alianza Atlético, no Peru.
Em casa, o Macará empatou novamente com o Tigre, desta vez por 2 a 2, e ficou no 0 a 0 contra o Alianza Atlético. Na última rodada, outro empate sem gols com o América de Cali, em Cali, confirmou a classificação.
O resultado foi histórico: o Macará terminou na liderança do Grupo A e avançou diretamente às oitavas de final, justamente em sua primeira participação na fase de grupos de uma competição internacional. Em seis partidas, foram duas vitórias e quatro empates, com apenas três gols sofridos — a segunda melhor defesa da fase de grupos, atrás apenas do São Paulo.
Antes de 2026, o clube havia disputado a Sul-Americana apenas duas vezes. Em 2019, caiu na segunda fase para o Royal Pari, da Bolívia. Em 2021, foi eliminado pelo Emelec. Em nenhuma dessas participações havia chegado à fase de grupos.
Agora, o desafio é ainda maior. O adversário será o Santos, que avançou sobre o Universidad Central da Venezuela nos playoffs e chega ao mata-mata com Neymar como principal referência. O primeiro jogo será na Vila Belmiro, em 13 de agosto, e a volta está marcada para 19 de agosto, com o Macará como mandante no estádio La Nueva Olla, em Assunção.
Para um clube que ainda busca seu primeiro título da elite equatoriana, a possibilidade de eliminar o Santos significaria muito mais do que uma classificação às quartas de final. Seria a confirmação de que a campanha de 2026 não é apenas uma surpresa passageira, mas o maior momento internacional da história do Ídolo de Ambato.




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