Kleiton Lima não trabalha desde o início de 2024 (Crédito: Guilherme Greghi/Santos FC)

A Justiça de Santos condenou, em primeira instância, a ex-jogadora espanhola Luciana Ortega pelo crime de difamação contra Kleiton Lima, ex-técnico das Sereias da Vila. A atleta havia relatado aos dirigentes do Santos uma situação que classificou como assédio sexual envolvendo o treinador, em 2023.

A sentença determina prestação de serviços à comunidade, pagamento de honorários advocatícios e indenização de R$ 20 mil a Kleiton Lima. A decisão ainda pode ser contestada pela defesa de Luciana. A sentença foi publicada na última quinta-feira (13), pela 4ª Vara Criminal de Santos.

Segundo a decisão, a juíza Denise Gomes Bezerra Mota considerou que, independentemente de Luciana ter escrito ou não a carta anônima que veio a público, a jogadora confirmou aos dirigentes do Santos que havia passado pela situação descrita no documento. Para a magistrada, o relato provocou consequências relevantes à honra e à carreira do treinador.

Ortega foi a primeira espanhola na história a jogar pelas Sereias (Crédito: Raul Baretta/ Santos FC)

Kleiton deixou o comando das Sereias da Vila em setembro de 2023, após a diretoria receber 19 cartas com relatos de jogadoras sobre o comportamento do treinador, incluindo acusações de assédio moral, constrangimentos e supostos “toques indevidos”. O técnico negou as acusações e, posteriormente, passou a buscar judicialmente responsabilizar pessoas que considerava responsáveis pelas denúncias.

Entenda o caso

A acusação que deu origem ao processo envolvendo Luciana estava relacionada a um episódio ocorrido em uma feira próxima à Vila Belmiro. A carta dizia que Kleiton teria abordado a jogadora enquanto ela comia um pastel e feito um comentário sobre seu corpo.

Luciana, embora tenha negado ser a autora da carta, confirmou aos dirigentes que havia vivido o episódio descrito. Em depoimento, relatou que interpretou o olhar do treinador para suas nádegas como uma situação de assédio.

O caso foi levado à Justiça por Kleiton, que alegou ter sido vítima de difamação. Uma ação anterior chegou a ser arquivada, mas a defesa do treinador buscou a abertura de uma investigação policial e apresentou um novo processo em 2024.

Durante as apurações, foram ouvidas pessoas ligadas ao Santos. Entre elas estavam as jogadoras Ketlen e Kelly, além do então coordenador geral de esportes do clube, Alexandre Gallo, e da ex-coordenadora do futebol feminino, Aline Xavi – que posteriormente assumiu uma nova função na base do masculino do clube. Os depoimentos apresentados pela defesa de Kleiton sustentaram a versão de que não houve assédio sexual no episódio da feira.

Gallo afirmou que o comentário estava relacionado ao acompanhamento físico da atleta e que o episódio teria sido interpretado de maneira equivocada. Aline Xavi, que teria presenciado a situação, também negou que tenha ocorrido assédio sexual.

A defesa de Kleiton ainda sustentou que Luciana teria sido uma das responsáveis por incentivar outras jogadoras a denunciarem o treinador. A investigação chegou a solicitar um exame grafotécnico para comparar a escrita da atleta com a carta, mas o resultado não foi conclusivo.

Carta mencionava episódio com pastel

Um dos trechos da carta atribuída a Luciana descrevia o encontro entre a atleta e Kleiton em uma feira:

“Uma vez, na feira, eu estava perto de uma barraca de pastel. Lá, o treinador chegou e perguntou se eu estava comendo pastel.”

Segundo o documento, após a jogadora responder que estava esperando outras atletas, o treinador teria dado a volta por ela, olhado para suas nádegas e feito um comentário sobre seu corpo.

A versão apresentada por Kleiton é diferente. O treinador afirmou que o assunto estava relacionado à alimentação da jogadora e ao trabalho de preparação física, negando qualquer intenção de cunho sexual.

Confira a carta completa

Em 2023, as 19 cartas entregues à diretoria do Santos continham diferentes relatos sobre o treinador. Kleiton deixou o cargo após a repercussão do caso e, posteriormente, chegou a ser anunciado novamente pelo clube em 2024, mas deixou a função pouco tempo depois diante da repercussão das denúncias.