
Batalha de Rosário completa 28 anos nesta quarta (Crédito: Divulgação)
A conquista de um título internacional costuma ser lembrada pelos gols, pelas defesas decisivas e pela festa dos torcedores. No caso do Santos de 1998, porém, a história da Copa Conmebol ficou marcada também pelo medo, pela tensão e por uma viagem que entrou para a memória do clube. A decisão contra o Rosário Central, da Argentina, ganhou o apelido de “Batalha de Rosário”, em uma das noites mais dramáticas da história recente do Peixe.
No dia 21 de outubro de 1998, o Santos entrou no estádio Gigante de Arroyito precisando de apenas um empate para levantar a taça. A vantagem havia sido construída duas semanas antes, na Vila Belmiro, com uma vitória por 1 a 0, gol de Claudiomiro. O que parecia uma missão esportiva relativamente simples transformou-se em um teste de resistência física e emocional.
O título tinha um significado especial. Depois das conquistas internacionais da era Pelé, o Santos buscava voltar ao protagonismo continental e encerrar um jejum que atravessava décadas. A Copa Conmebol, torneio organizado pela entidade sul-americana entre 1992 e 1999, representava a oportunidade de recolocar o clube entre os campeões do continente.
Uma final que começou em clima de guerra
A tensão começou ainda no primeiro jogo, disputado em 7 de outubro, na Vila Belmiro. A vitória santista foi acompanhada de um confronto bastante ríspido, com discussões, entradas duras e expulsões dos dois lados.
Pelo Santos, o zagueiro Jean e o atacante Viola receberam cartões vermelhos, assim como o técnico Emerson Leão. O Rosário Central também terminou a partida com três jogadores expulsos: Carracedo, Scotto e Montoya.
O resultado deixou o Peixe em vantagem, mas os incidentes aumentaram a expectativa de uma recepção hostil na Argentina. Além das suspensões, o elenco santista sofreu com problemas físicos e chegou à decisão com poucas opções disponíveis.
A comissão técnica e a diretoria se prepararam para uma operação de segurança especial. O Santos chegou a reforçar a proteção da delegação e evitou divulgar antecipadamente detalhes da hospedagem, preocupado com possíveis interferências da torcida adversária.
Pedras, bombas e uma chegada dramática
O cenário encontrado em Rosário foi ainda mais tenso do que o esperado. Na chegada ao Gigante de Arroyito, o ônibus da delegação santista foi cercado por torcedores. A polícia precisou intervir para abrir caminho, enquanto objetos eram arremessados contra os brasileiros.
O estádio recebeu mais de 50 mil pessoas, em um ambiente de pressão intensa sobre os visitantes. Relatos dos jogadores daquela equipe descrevem arremessos de pedras, garrafas, pilhas e outros objetos, além da utilização de bombas durante os incidentes.
A confusão provocou um atraso de aproximadamente 40 minutos no início da partida. Nos vestiários, integrantes da delegação chegaram a discutir se havia condições de entrar em campo.
Emerson Leão, que já havia vivido episódios de violência em uma decisão continental pelo Atlético-MG, demonstrava preocupação com a segurança dos jogadores. A decisão de disputar a partida foi tomada depois de conversas entre atletas, comissão técnica e dirigentes.
Os mais experientes tiveram papel importante para tranquilizar o grupo. O capitão Narciso, o goleiro Zetti e outros líderes ajudaram a convencer os companheiros de que era necessário entrar em campo e tentar garantir a conquista.
Zetti e a resistência santista
Quando a bola finalmente rolou, o Rosário Central tentou aproveitar o apoio da torcida para pressionar desde os primeiros minutos. O Santos, comandado por Emerson Leão — que acompanhou a decisão das tribunas por causa da suspensão —, adotou uma postura cautelosa e procurou proteger a vantagem conquistada na Vila Belmiro.
O time argentino tinha a obrigação de vencer para levar a decisão adiante e buscou impor intensidade ao confronto. Do outro lado, o Peixe precisava suportar a pressão sem cometer erros que pudessem comprometer a campanha.
O goleiro Zetti foi um dos grandes personagens da noite. Com defesas importantes e segurança nas intervenções, ajudou a impedir que o adversário transformasse o volume ofensivo em gols.
A dificuldade aumentou quando o meia Eduardo Marques foi expulso. Mesmo em desvantagem numérica, o Santos manteve a organização defensiva e continuou lutando por cada bola.
O Rosário Central também terminou com dez jogadores, após a expulsão de Daniele. Ainda assim, a pressão permaneceu até os minutos finais.
O placar não saiu do zero. O empate por 0 a 0 confirmou a conquista santista graças à vitória por 1 a 0 no primeiro confronto.
Uma taça para entrar na história
O apito final transformou o alívio em comemoração. O Santos havia conquistado a Copa Conmebol de 1998 e voltava a levantar um troféu internacional oficial de grande relevância depois de um longo intervalo desde os títulos da era Pelé.
A campanha também reforçou a imagem de uma equipe competitiva, capaz de superar limitações técnicas e desfalques por meio de organização, espírito coletivo e determinação. Sob o comando de Emerson Leão, o elenco encontrou forças para sobreviver a uma decisão que ultrapassou os limites do jogo.
A Batalha de Rosário ficou marcada pelas circunstâncias que cercaram a final, mas também pelo desempenho de jogadores que entraram para a memória santista. Zetti, Narciso, Claudiomiro, Anderson, Sandro, Athirson, Élder e Marcos Bazílio fizeram parte de uma equipe que transformou uma noite de enorme pressão em uma conquista histórica.
Mais do que um empate sem gols, aquele 21 de outubro de 1998 representou a superação de um ambiente adverso e a retomada do Santos no cenário internacional. Uma taça conquistada longe da Vila Belmiro, diante de um estádio hostil, que até hoje permanece associada à coragem e à resistência de um dos elencos mais lembrados da história alvinegra.
Ficha técnica da Batalha de Rosário
Rosario Central 0 x 0 Santos
Data: 21/10/1998, quarta-feira.
Competição: Copa Conmebol – Final – Jogo de volta (decisão)
Local: Estádio Gigante Arroyto, em Rosário, na Argentina.
Público: 50.000
Árbitro: Ubaldo Aquino (PAR).
Cartões amarelos: Cuberas, Cappelletti, Marra e Flores (R); Claudiomiro, Marcos Bazílio, Athirson, Sandro e Narciso (S).
Cartões vermelhos: Daniele (R) e Eduardo Marques (S).
ROSARIO CENTRAL-ARG
Buljubasich, Jara, Marra (Cappelletti), Gerbaudo e Cuberas; H. González (E. González), Daniele, Rivarola e Gaitán; Flores e Maceratesi (Ruiz). Técnico: Edgar Bauza
SANTOS
Zetti, Anderson, Sandro, Claudiomiro e Athirson; Marcos Bazílio, Élder, Narciso e Eduardo Marques; Fernandes (Baiano) e Alessandro (Adiel). Técnico: Émerson Leão.




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