Alex reinou na Vila no início do anos 2000 (Crédito: Reprodução)

Por Fernando Ribeiro e Vinícius Cabral, especial para o DIÁRIO DO PEIXE

O Santos é o time com mais gols no futebol, mas ao longo de sua história o clube também colecionou zagueiros que impressionaram. Defensores que fizeram a diferença pela qualidade técnica, gols, liderança…

Os historiadores Fernando Ribeiro e Vinícius Cabral, que escrevem os textos Jogos para sempre e Lendas da Vila para o DIÁRIO DO PEIXE, selecionaram os cinco melhores zagueiros que vestiram a camisa alvinegra em todos os tempos. Confira abaixo a lista TOP 5.

1 – Mauro

Mauro era uma das lideranças do Peixe de Pelé (Crédito: Santos FC)

Dono de elegância ímpar, Mauro Ramos de Oliveira foi um dos maiores zagueiros da história do futebol mundial. Apesar de nascido em Poços de Caldas, em 1930, profissionalizou-se no São Paulo. O sucesso imediato pelos tricolores rendeu-lhe comparações a Domingos da Guia, até então considerado o maior zagueiro brasileiro de todos os tempos. Mesmo muito jovem, foi titular do Brasil na campanha vitoriosa na Copa América de 1949, porém ficou de fora da convocação final para a Copa do Mundo de 1950.

Jogou pelo São Paulo até 1960, quando o Peixe pagou uma pequena fortuna para trazê-lo à Vila Belmiro: 5 milhões de cruzeiros. Estreou pelo Alvinegro em 27 de março de 1960, no empate sem gols diante do Palmeiras, pelo Torneio Rio-São Paulo. Pelo Santos, Mauro conquistou todos os títulos possíveis para um jogador de sua época. Junto a Calvet, com a proteção de Mengálvio e resguardado por Gylmar, Mauro integrou uma defesa quase perfeita, apesar do ataque santista ter sido cantado de verso em prosa por tantos anos.

Destacava-se pela qualidade técnica e tranquilidade. Em tempos de gramados barrentos, por vezes nem ao menos sujava o uniforme todo branco. A elegância conferiu-lhe o apelido de Martha Rocha, a mais famosa modelo da época e segundo lugar no concurso Miss Universo em 1954. Culto, apreciava livros de psicologia, além de ser grande amante de cinema e teatro. Ainda no transcurso de sua carreira, tinha outra ocupação: era funcionário público estadual, no Serviço de Medicina Social.

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Mauro foi bicampeão do mundo com a Seleção Brasileira. Na Copa do Mundo de 1958, não atuou em nenhum jogo, mas em 1962 viria a redenção: foi titular e capitão do escrete canarinho. A imagem de Mauro erguendo a Taça Jules Rimet é facilmente encontrada em pesquisas na internet. Esteve, também, no elenco que disputou a Copa de 1954.

Com a camisa do Peixe, disputou 354 partidas, marcando apenas um gol. Foram cinco títulos paulistas, cinco títulos brasileiros, duas Libertadores e dois mundiais. Encerrou a carreira em 1967, aos 37 anos, sem deixar o futebol. Tornou-se treinador e, inclusive, comandou o Santos entre os anos de 1971 e 1972.

2 – Formiga

Formiga fez sucesso como jogador e treinador na Vila (Crédito: Reprodução)

Francisco Ferreira de Aguiar é figura marcante na história do Santos. Nascido em Araxá (MG), foi apelidado de Formiga ainda na infância devido ao porte físico franzino. Começou a carreira no Cruzeiro e chegou ao Peixe em 1950, aos 20 anos de idade. Sua estreia com o manto alvinegro foi naquele mesmo ano, em 28 de maio, em amistoso diante da seleção de Juiz de Fora (2×1 para os paulistas).

Muito jovem para a época, teve poucas oportunidades nos primeiros anos, mas em 1952 firmou-se como titular da equipe santista. Atuava como centro-médio, em sistema tático diferente dos utilizados atualmente. Nos dias de hoje, figuraria como um quarto defensor, porém com mais mobilidade de ir à frente – inclusive atuou como volante em algumas oportunidades. Dono de técnica incomum para um zagueiro, rapidamente tornou-se destaque do time. Em brincadeira com os amigos, sempre dizia jamais ter dado um chutão na vida, o que demonstra sua qualidade com a bola nos pés.

Em 1954, consolidou-se como um dos melhores da posição no país. Liderou por diversas rodadas o prêmio de melhor jogador do Paulistão daquele ano, perdendo o título nas rodadas finais, com o insucesso do Peixe na competição. Transformou-se em titular absoluto da Seleção Brasileira, porém lesões acabaram afastando de disputar a Copa de 1958, que acabaria com o Brasil campeão. Em 1957, foi jogar no Palmeiras, em troca de boa quantia de dinheiro, além dos passes de Jair Rosa Pinto e Laércio.

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Regressou à Vila Belmiro em 1959, em tempo de conquistar os títulos que faltaram-lhe na primeira passagem: campeão brasileiro, da Libertadores e Mundial. Foram 412 jogos com a camisa santista, com três gols anotados. Apaixonado pelo clube, prosseguiu defendendo-o mesmo depois de aposentado. Foi técnico da equipe principal e das categorias de base, inclusive comandou a primeira geração de “Meninos da Vila” que encantou o país e trouxe o título paulista de 1978 para Santos.

3 – Joel Camargo

Joel é mais um que honrou a camisa do Peixe e da Seleção (Crédito: Reprodução)

Elegância e firmeza. Joel Camargo reunia essas duas características que o fizeram ser um dos maiores zagueiros da história do Peixe. Nascido na cidade de Santos, em 1946, o beque iniciou carreira na Portuguesa Santista, mas logo atravessou a Avenida Pinheiro Machado para vestir a camisa do Santos, em 1963.

Apelidado de Açucareiro por conta de suas passadas largas e o hábito de abrir os braços ao subir para cabecear, o zagueiro estreou com a camisa do Peixe com apenas 16 anos em derrota contra a Ferroviária, em Araraquara. Como a concorrência da zaga santista era ferrenha, Joel demorou a se firmar como titular, mas com a maratona de jogos que o elenco enfrentava, o jovem sempre jogava.

Em 1969, com mais experiência e títulos em seu currículo, disputava vaga na zaga do Santos com nomes como Ramos Delgado e Djalma Dias. Não era incomum o técnico Antoninho deixar Joel no banco, apesar dele ser titular absoluto da Seleção Brasileira comandada por João Saldanha nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970. Com a saída de Saldanha e a chegada de Zagallo no comando técnico, Joel perdeu a titularidade, mas fez parte do elenco tricampeão mundial com a camisa amarelinha.

Em novembro de 1970, Joel envolveu-se em gravíssimo acidente automobilístico que culminou na morte de duas mulheres. O atleta quebrou alguns ossos como clavícula, a perna direita, além de ficar em coma. Ficou praticamente seis meses deitado em uma cama, se reabilitando das lesões e lidando com o fato de ter sido penalizado com um ano e oito meses de prisão por homicídio culposo. Cumpriu a pena em liberdade, mas a partir daquela trágica noite sua vida nunca mais foi a mesma.

Acusado de estar embriagado na noite do acidente, Joel teve seu contrato rescindido pelo Santos e nenhum outro clube brasileiro quis contar com seu futebol. O acidente de novembro de 1970 foi o quarto protagonizado pelo atleta em poucos meses. Sem espaço por aqui, o beque foi atuar no PSG da França, naquela época longe do glamour atual. Joel fez apenas duas partidas pelo clube parisiense, sendo o primeiro brasileiro a vestir a camisa da equipe.

Ainda jogou pelo CRB ,de Alagoas, e Saad, de São Caetano, mas seu futebol já não era mais o mesmo. Joel teve problemas financeiros e foi obrigado a vender itens como sua medalha de campeão do mundo e passou a trabalhar no Porto de Santos. Morreu em 2014 em sua cidade natal aos 67 anos.

Pelo Peixe, Joel atuou em 304 partidas, marcou cinco gols e conquistou cinco títulos paulistas, três títulos da Taça Brasil, uma Recopa Sul-Americana e uma Recopa Mundial. Seu último jogo pelo clube foi um dia antes do acidente, em um empate sem gols contra o América (RJ), no Parque Antártica.

4 – Alex

Alex, o zagueiro com mais gols na história do Santos (Crédito: Reprodução)

Simplesmente o maior zagueiro artilheiro da história do Santos. Com 20 gols em apenas 103 jogos com a camisa alvinegra, Alex deixou seu nome marcado na história. E a vocação ofensiva era a parte menos vistosa de seu futebol. O zagueiro se impunha pela força, velocidade e técnica. Não era incomum ver Alex driblando atacantes adversários na saída de bola.

Alex fez as categorias de base no Juventus e foi contratado para o juvenil do Santos, pela módica quantia de R$ 50 mil. Em um treinamento no CT Rei Pelé, o técnico Leão chamou o garoto para compor a equipe reserva. Desde esse coletivo a ascensão de Alex foi meteórica.

Estreou pela equipe na quarta rodada do Brasileirão 2002 quando Leão escalou três zagueiros (Alex, André Luis e Preto). A tática deu certo até os 48 minutos do segundo tempo, quando Roni empatou a partida. Mas naquele jogo o Santos ganhou um zagueiro para os anos seguintes.

Ao lado de André Luis formou as Torres Gêmeas, parte importante do time no histórico título que tirou o Peixe da fila de 18 anos com a conquista do Brasileirão de 2002. O primeiro gol não tardou: pouco menos de um mês após sua estreia marcou o gol da vitória contra o Vasco, em São Januário, e ajudou a quebrar um tabu de 11 meses sem vitórias fora de casa.

O Boi, como foi apelidado por Diego e Robinho, também foi parte importantíssima da campanha do Santos na Libertadores 2003. Alex, inclusive, foi o autor do único gol santista contra o Boca Juniors na final, em um chutaço de fora da área. Nesta temporada o zagueiro fez 15 gols, ficando apenas seis tentos atrás de Ricardo Oliveira, o artilheiro máximo do elenco. No ano seguinte jogou quatro partidas da campanha vitoriosa no Brasileirão até ser negociado. Quem via Alex jogar sabia que era questão de tempo para que o futebol europeu o levasse.

O Chelsea contratou o zagueiro por aproximadamente 20 milhões de dólares em 2004, mas devido a problemas em seu visto de trabalho, o clube londrino o emprestou ao PSV Eindhoven. Após quatro temporadas na Holanda, finalmente Alex foi atuar no Chelsea, onde passou cinco anos. Também atuou por PSG e Milan, seu último clube, em 2016. Depois ainda treinou no CT Rei Pelé para aprimorar a forma, mas uma grave lesão no joelho o impediu de encerrar a carreira no Peixe.

5 – Edu Dracena

Dracena foi capitão do Santos na conquista da Libertadores 2011 (Crédito: Ivan Storti/Santos FC)

A imagem de Edu Dracena levantando o troféu da Libertadores é emblemática para a torcida santista: foi a nossa primeira conquista da Copa a cores. Como na década de 60 a cerimônia para entrega da taça não era realizada no gramado, o zagueiro é o primeiro santista a fazer o célebre gesto de levantar o belo prêmio aos céus. Ficou eternizado.

Eduardo Luís Abonízio de Souza nasceu em 18 de maio de 1981, na cidade de Dracena, no interior do Estado, daí o apelido que o consagrou. Começou a carreira no Guarani, de Campinas. O bom posicionamento era a marca de seu estilo. Vigoroso por baixo, eficiente na bola aérea, tinha na liderança e organização da defesa seus melhores atributos. Antes de desembarcar na Vila Belmiro, passou por Olympiacos (Grécia), Cruzeiro e Fenerbahce (Turquia). Chegou em processo final de recuperação de lesão no joelho, o que levantou dúvidas sobre sua real condição de atuar em alto nível. Foi trazido por Luxemburgo, técnico do time à época. Estreou com o manto santista em 29 de novembro de 2009, diante do Avaí (empate em 2 a 2, na Ressacada).

Plenamente recuperado, foi fundamental no mágico ano de 2010. O Santos conquistou dois títulos em um mesmo ano, feito inédito em 41 anos. No título Paulista, foi eleito um dos melhores zagueiros da competição. Na conquista da Copa do Brasil, foi autor do gol decisivo na última partida – derrota por 2 a 1, no Barradão, diante do Vitória.

Com a saída de Robinho, ainda em 2010, tornou-se o capitão da equipe. Suas ótimas atuações fizeram com que integrasse a seleção do Paulistão por três anos seguidos: 2010, 2011 e 2012. Em todas elas, sagrou-se campeão. Na conquista da Libertadores de 2011, foi decisivo marcando o único gol da vitória sobre o Cerro Porteño, na primeira partida da semifinal. Saiu do clube em 2015 e foi jogar no Corinthians – passou, depois pelo Palmeiras. Sua conduta respeitosa em relação ao Santos, mesmo atuando por rivais, fez com que a torcida não perdesse a admiração pelo capitão do tri.